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Soluções inteligentes que estão se tornando tendência nas ruas e nas vitrines

19/01/2010 – 14:52:05

Novos hábitos, matérias-primas surpreendentes, técnicas modernas e um século inteiro para salvar o mundo. A sustentabilidade chegou no mercado da moda para agregar valor a marcas e ensinar ao novo consumidor, o valor de uma roupa ecologicamente correta.

Por Sheila Godoi e Mariana Jansen para o portal asboasnovas.com

Vestir, literalmente, a sustentabilidade. Essa é a proposta de lojas e estilistas da indústria têxtil para o consumidor do século XXI. Com todas as atenções do mundo voltadas para a preservação do meio ambiente e o consumo consciente, agora a tendência na moda é vestir roupas que tragam impresso esse conceito.

Diferentemente do que é propagado pela mídia, dos incentivos ao consumo desenfreado, a proposta do consumo consciente quer o uso apenas do que é necessário e, consequentemente, a redução no uso de matérias-primas que desencadeiem processos poluentes. Com as tendências sustentáveis, é possível ter um guarda-roupas enxuto, manter a conexão com o que está nas vitrines e evitar o desperdício.
Para se chegar a transformar hábitos, a educação é o primeiro passo. A OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), denominada Instituto Ecotece, é uma plataforma de informações que promove o “Vestir Consciente”. Fundadora do portal de educação ambiental, Ana Cândido pensa na educação das massas para a sustentabilidade como “um movimento de consciência planetária que promove repercussão na mídia, nas escolas, nas perguntas da nova geração de crianças e nos sinais de fúria da natureza, que são mensagens eficientes para tomada de atitude.”

Atitudes pequenas geram resultados relevantes quando realizadas por um número maior de pessoas. Esse é um dos pontos defendidos por Juliana Páffaro proprietária da loja infantil Pistache & Banana. Ela acreditou que o público infantil tem um papel na difusão de atitudes mais conscientes e abriu sua loja, que acaba funcionando como um espaço aberto para o aprendizado desse público. “Se essa geração de crianças não mudar o mundo, como será a situação? Sem dúvida, com educação, elas são atuantes. A gente tem que ajudar a melhorar agora, nada de futuro”, diz.

Reduzir o consumo, reutilizar o que já se tem e reciclar as peças que não são mais utilizadas. A filosofia dos “três erres” nunca esteve tão aplicada à moda. Materiais que antes viravam lixo, como garrafas PET, fibra de bambu e pneus, servem de inspiração para muitos empreendedores. Roupas desgastadas viram um novo tecido reciclado. As que já não são mais usadas, e empacam nos armários, podem ser objeto de desejo de outras pessoas. Esses são princípios que viraram negócio para muita gente. “É um conceito que está se tornando maior que a própria moda”, especula o sócio da confecção gaúcha Budha Khe Rhi, Carlos Stein. A BKR produz todas as coleções a partir da fibra de bambu, da reciclagem da garrafa pet e do algodão orgânico, de tecidos reutilizados e até de casca de árvore. As peças têm caimento perfeito e atraem curiosos e engajados. Mas, reforça Cláudio, o consumidor quer uma peça bonita: “não basta produzir uma camiseta ecológica e esperar que ela se venda somente pelo fato de ser reciclável. A peça na moda reciclável deve ter conceito e ser original”.

Um dos projetos do Ecotece, o Retece, também promove a prática da reciclagem de roupas. Através de doações, quinze mulheres da comunidade carente Jardim Santo André trabalham na higienização, reforma e retoque de roupas que serão vendidas na mesma comunidade por preços simbólicos. A reciclagem permite aos moradores a aquisição de roupas por um preço acessível e o prazer de adquirir uma peca “nova” e dentro das possibilidades daquele consumidor.

Seguindo um conceito parecido, o Super Cool Market também acredita que uma peça sem uso e em bom estado pode satisfazer os desejos de consumo de muitos fashionistas. Inspirada na rede de lojas americana Buffalo Exchange, a apresentadora Carla Lamarca importou para o Brasil o conceito da troca, venda e compra de roupas usadas e em bom estado. Junto com amigas que sempre quiseram ter um negócio juntas, abriu, na Vila Madalena em São Paulo, uma loja com roupas estilosas e formato de negócio sustentável, num ambiente que em nada se assemelha aos pequenos brechós de roupas amontoadas e vintages, com cara de vó. “Não temos fornecedor e não precisamos produzir nada; o negócio se sustenta por si só”, resume Carla.

As roupas, dispostas em araras organizadas e ambiente amplo, são meticulosamente avaliadas pelas próprias sócias, para garantir o bom estado das peças e coerência no estilo daquilo que é exposto. “A idéia do Super Cool é não datar a moda, mas conseguir aumentar a vida útil de cada peça, ao mesmo tempo em que podemos promover um ciclo mais consciente de consumo”. O sistema é simples: os clientes levam as roupas que não querem mais até a Super Cool e podem trocá-las por outras peças da loja, doar para que sejam encaminhadas às instituições parceiras da loja ou vendê-las. “Nos EUA é muito comum as pessoas enxergarem as próprias roupas como mercadoria. Elas vendem e pagam contas, viajam, guardam o dinheiro. A Buffalo, que inspirou a Super Cool, está entre as lojas que mais vendeu durante a crise mundial”, comemora Carla. “O conceito da sustentabilidade na moda só tende a crescer. As pessoas não têm mais o mesmo poder aquisitivo que tinham, o mundo não tem mais tantos recursos”.

Segundo Ana Cândido, do Ecotece, “é crescente o número de pessoas que estão buscando conhecer e praticar o vestir consciente e isso também aumenta o volume de negócios que estão nascendo ou se adaptando para esse propósito”. A tendência se revela no modelo da Budha Khe Rhi, que em 2007 tinha apenas 10% das roupas com tecidos ecológicos e hoje tem cerca de 50% da produção dentro dos padrões “verdes”. O valor de venda ainda é um dificultador para popularizar as peças ecologicamente corretas, já que os processos de reciclagem são mais trabalhosos que os tradicionais mais poluentes.

Juliana Páffaro é atenta para a questão do preço e acredita que jogar o lucro na mesma proporção dos concorrentes no mercado têxtil é inviável no sentido da competitividade. A principal matéria prima utilizada pela Pistache & Banana, é o algodão orgânico, que não recebe agrotóxico no seu cultivo, e que também produz o jeans sem enxofre, com uma lavagem que inclui somente pedras e dispensa produtos químicos prejudiciais à saúde de quem os administra. Juliana trabalha com o conceito de “ecossocial”, que seleciona empresas que respeitam o meio ambiente e o homem ao mesmo tempo: “nós não queremos o melhor preço, nós queremos um algodão que além de ecológico seja justo”, diz referindo-se ao Comércio Justo, uma iniciativa de valorização e apoio ao produtor rural, que tem como princípios o cultivo sustentável. Todas essas exigências ainda encarecem o produto que chega às mãos do consumidor, que exige, além da qualidade, uma estética atraente.

Na mesma busca por agregar valor ecológico à marca e chamar a atenção das pessoas para a natureza, a loja carioca Farm escolheu para a sua filial em São Paulo um projeto verde, concebido pela Triptyque, escritório badalado de arquitetura. A fachada com um jardim vertical e madeira de reflorestamento quer despertar os sentidos para a importância do “verde” aderido ao meio urbano, convivendo com a cidade em harmonia. “A natureza sempre será nossa grande fonte de inspiração. Além disso, a gente recebe muita gente na loja que estuda arquitetura e vem visitar o prédio por conta disso, e muitas meninas se tornaram cliente a partir desse primeiro contato,” declara Carlos Mach, diretor de branding da marca. Coleta seletiva e adoção da cultura “zero desperdício de matéria prima” já estão completamente incorporadas aos valores da Farm.

Juliana não fica atrás no quesito “praticar o que se propõe na teoria”. A loja optou por móveis de papelão, madeira reflorestada e MDF, além de tinta mineral para a pintura das paredes, sistema de calhas que armazena a água da chuva para que as crianças que vão à loja possam regar as plantas e, na composição do balcão, filtros de café usados.

Na percepção de quem investe em moda reciclada e sustentável, a tendência veio para ficar. Ou já vai deixar de ser tendência para virar padrão de consumo. A grande chave para que esse processo seja definitivo será virada pelos próprios consumidores, que ainda precisam assimilar o conceito. Depois do lixo reciclável, que já virou hábito para boa parte das pessoas nas grandes cidades, a moda também quer estar dentro dos padrões, na corrida para salvar o planeta.

Edição: Maria Clara Vergueiro
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/solucoes-inteligentes-que-estao-se-tornando-tendencia-nas-ruas-e-nas-vitrines/

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