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Em busca da infância

Por Renata Spiller*

A percepção da criança em relação ao mundo não se dá da mesma forma que a de um adulto. A sua realidade é seu imaginário. É por meio das ações, do fazer, do pensar e do brincar que vai construindo seu conhecimento e desenvolvendo suas estruturas para se relacionar com o mundo que a cerca. E por que a moda não pode acompanhar este desenvolvimento, com peças que ajudem as crianças em cada fase, que incitem sua criatividade, a experimentação, que as estimulem a criar e transformar, que sejam confortáveis e auxiliem nos seus movimentos?

Brincando e jogando, a criança tem oportunidade de desenvolver capacidades importantes para sua vida, como atenção, afetividade, o hábito de permanecer concentrado, entre outras. Por meio do brinquedo, ela reinventa o mundo e libera suas fantasias ela satisfaz algumas de suas curiosidades e traduz o mundo dos adultos para a dimensão de suas possibilidades e necessidades.

E se nos baseássemos na psicologia genética de Jean Piaget para criar roupas para crianças conforme o estágio de seu desenvolvimento, será que poderíamos ter peças para cada fase específica? A resposta é sim, claro. Veja como:


Até 2 anos: na fase sensório-motora ocorre o desenvolvimento de movimentos, musculatura, sentidos e percepção. É mais apropriado usar peças separadas e não muito amplas, de tecido confortável e com elasticidade. Assim, seus movimentos ficam facilitados, e a criança consegue abrir e fechar os braços, esticar e dobras as pernas ou mexer em objetos.

De 2 a 4 anos: a criança realiza exercícios motores utilizando as mãos, como encaixar objetos, desmontar e montar coisas intencionalmente. Para essa idade, a roupa pode ser como um quebra-cabeça, com estampas removíveis e que podem ser montadas e desmontadas, acessórios que possam se movimentar na peça, porém que não possam ser retirados, usando pequenas ímãs internos, velcro, zíper. A criança nesta fase gosta de brincar de faz-de-conta para expressar o mundo que está percebendo. O jogo simbólico propicia grande desenvolvimento cognitivo e social. Nessa brincadeira de representação, ela cria inúmeras situações ao pretender ser um animal ou objeto, ou ao utilizar um objeto como se fosse outro, adquirindo a liberdade de sugerir temas e assumir papéis. Quando participa de brincadeiras desse tipo, a criança utiliza a linguagem adequada e participa de atividades importantes, adquire experiência, conhecimento e assimila os hábitos ou costumes locais.

De 5 a 6 anos: ela começa a levar a sério o jogo. Passa a gostar de movimentar seu corpo, de pular, nadar, correr. Além disso, gosta de ouvir história e recontá-las, de brincar com as letras do alfabeto, ver e recortar figuras de revistas e jornais, de brinquedos de montar e desmontar, escrever, ler; estes são seus novos interesses, além da imitação, que continua presente. Sendo assim, é necessário que as roupas possibilitem maior agilidade, as peças podem ter partes removíveis como mangas e capuz, calças com bolsos removíveis, casacos compridos que ficam curtos, saias que podem se transformar em bermudas, entre outras.

A crianças se desenvolvem de acordo com os estímulos dados ao seu cérebro e conforme o meio em que vive, sendo assim, os adultos que fazem parte deste meio são responsáveis por grande parte no seu desenvolvimento físico, intelectual e social. Criando produtos adequados ao seu corpo e aos movimentos que realiza, a moda mostra seu papel social e passa de fútil e efêmera para ser vista como coadjuvante na ludicidade do aprender, do desenvolver.

* Renata Spiller é designer da Costume Design e consultora do gênero infantil da UseFashion. Graduada em Moda pela UCS, e especialista em Moda, Consumo e Comunicação pela PUCRS.
Fonte: Use Fashion Journal – Moda Profissional. Ano 6, nº 70, novembro 2009, edição brasileira, página 37

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